Escaras da natureza

Publicado em 29 - mar - 2015 Categoria: Proteção ambiental


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Autor: João O. Salvador
 
Que a Terra está gravemente enferma, destemperada, em estado febril e desconsolada, ninguém duvida. Seus tremores são nauseantes, as escaras abdominais são atormentantes e o ardor da azia, é irritante. Transpira e chora copiosamente, mas no secar de suas lágrimas, surgem os longos veranicos e os intensos calafrios. O vírus que a agride é muito agressivo, faz parte de uma linhagem humana de instinto destruidor, predatório, escarificador, que necrosa seus tecidos.
Para James Lovelock, em sua teoria de Gaia, a Terra se comporta como se estivesse viva, e qualquer coisa viva pode gozar de boa saúde ou adoecer, mas o efeito estufa chegou a ponto de maltratá-la brutalmente, com danos irreversíveis, e que bilhões de pessoas morrerão neste século em conseqüência disso. A irresponsabilidade é de todos, dos que nada fizeram para manter a atmosfera, os oceanos e a superfície terrestre aptos para a vida e pagarão caro, porque boa parte das terras tropicais se transformará em caatinga e deserto, não servindo mais para regulação do clima, nem para colher os benditos frutos de seu ventre.
O britânico John Gray vai mais longe: “A humanidade se engana ao acreditar que ocupa um lugar de destaque no universo, dona de seu destino e que algum dia será capaz de construir um mundo melhor”. Porém, dentro de sua filosofia, a mesma será descartada quando deixar de ser útil para o planeta.
Para este modesto articulista, o homem sempre foi inútil, fútil, dispensável para a natureza. Essa espécie sabichona deu origem aos indivíduos bipolares, os que acreditam, sabiamente, na lei dos mais aptos, e, por isso, sangram e danificam os ecossistemas. Falam em paz, mas se odeiam, controla sua espécie com guerras étnicas. Acham que ninguém manda no mundo, porque baseiam que o pressuposto dono renunciou ao cargo, depois da decepção com sua primeira cria, apesar da nova chance de reassumir (Mateus 4:1, 8 -10), mas desapareceu, acovardou-se, ao decretar o livre – arbítrio.
De visão menos cética, creio que a reversibilidade existe, mas segue um curso natural, de mudanças climáticas avassaladoras e abruptas, as quais determinam inúmeras tragédias, de tempos em tempos, cuja durabilidade pode durar séculos. Certamente, haverá um “calor de gelar”, um aquecimento gradual que leva a um resfriamento repentino de muitos graus, resultante do derretimento de geleiras, sem configurar, todavia, uma nova era glacial.
A teoria do aquecimento e de resfriamento ajuda-nos a refletir sobre a extinção de espécies animais, vegetais e o colapso de algumas civilizações antigas. Outras se adaptaram e, à medida que o clima foi se tornando favorável, ocorreu uma grande multiplicação de animais e vegetais, através de novas combinações genéticas e mutações, como vai acontecer sempre.
Salvacionistas apelam para o bom senso, porém, o problema é que na escala evolutiva não existe um plano concreto, democrático, operante, saudável para o bem das espécies. A necessidade de evoluir intensifica a vida, acelera todos os aspectos de um sistema complexo e a exploração irracional de recursos naturais não pode deixar que a humanidade pense estar vivendo em um ecossistema ilimitado. A extração e exportação de minérios como matéria-prima para diversas regiões do planeta, pode até modificar o equilíbrio energético da Terra.
O avanço tecnológico não veio com o propósito de fazer estragos, reduzir as relações afetivas do homem e amor à natureza, como ocorre. A proposição é garantir a vida humana com qualidade, sem romper os limites do equilíbrio natural, arrastando, concomitantemente, a qualidade de vida para todos os ecossistemas.

JOÃO SALVADOR é biólogo da USP
(Universidade de São Paulo)
salvador@cena.usp.br